Mulheres na corrida: o que os números revelam sobre desempenho e resistência

mulher correndo na beira mar norte

A maratona feminina vem quebrando barreiras em um ritmo impressionante. Em 2024, Ruth Chepngetich se tornou a primeira mulher a correr os 42,195 km abaixo de 2h10, com 2h09min56s em Chicago. O recorde já caiu novamente: em 2026, Fotyen Tesfay marcou 2h10min51s em Barcelona.

Mas olhar apenas para o relógio conta uma parte da história. Para as mulheres, correr envolve diferenças fisiológicas em relação aos homens e também desafios que começam muito antes da largada.

No aspecto biológico, existe uma diferença média de desempenho entre homens e mulheres, relacionada principalmente a fatores como massa muscular, concentração de hemoglobina, tamanho cardíaco e capacidade máxima de utilização de oxigênio. Uma revisão publicada em 2026 por David A. Holdsworth e pesquisadores da Universidade de Oxford e do Royal Centre for Defence Medicine estima que a diferença de desempenho entre os sexos fica em torno de 10% a 15% na maioria dos esportes, mas diminui conforme aumenta a distância e a duração do exercício.

Isso não significa, porém, que as mulheres simplesmente tenham menos capacidade para provas longas. A mesma revisão aponta características que podem favorecer o desempenho feminino em exercícios prolongados, como maior utilização de gordura como fonte de energia e maior resistência à fadiga. Um estudo publicado em maio de 2026 encontrou um resultado interessante: depois de três horas de corrida, corredoras altamente treinadas apresentaram uma queda de aproximadamente 1% na velocidade, enquanto os homens do mesmo nível de desempenho tiveram redução de 10%.

Outro estudo, publicado na Scientific Reports em julho de 2026, chegou a uma conclusão que chama atenção. Pesquisadores analisaram 873.334 participantes da Maratona de Berlim entre 1999 e 2025 e descobriram que os homens tinham cerca de duas vezes mais probabilidade de sofrer uma desaceleração de pelo menos 20% na segunda metade da prova. Entre as mulheres, o ritmo foi, em média, mais estável.

Só que existe uma parte dessa história que não aparece em nenhum pace.

Uma revisão brasileira sobre as barreiras enfrentadas por mulheres na corrida de rua identificou 13 obstáculos recorrentes. Entre eles estão: falta de tempo, segurança, companhia, filhos, dificuldades financeiras, lesões e experiências negativas com treinadores. Ou seja, para muitas corredoras, encontrar espaço para treinar não depende apenas de disposição: depende também de rotina, estrutura e condições para praticar o esporte.

A própria história da maratona mostra como o acesso interfere no desempenho. As mulheres só foram autorizadas a disputar a maratona olímpica em 1984. Desde então, o recorde mundial feminino melhorou cerca de 25%, enquanto o masculino avançou menos de 5%. O aumento da participação feminina ampliou também o número de atletas, treinamentos e oportunidades competitivas.


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